Minhas Leituras #6: Cântico – Ayn Rand

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Título: Cântico
Autora: Ayn Rand
Editora: Vide Editorial
Ano: 2015
Páginas: 116
Tradutor: André Assi Barreto
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As ideologias destroem a linguagem, uma vez que, tendo perdido o contato com a realidade, o pensador ideológico passa a construir símbolos não mais para expressá-la, mas para expressar sua alienação a ela. (Voegelin, 2008, p. 39 apud Rand, 2015, p. 13).

Dessa vez escreverei sobre um livro que pode ser classificado como “incomum”. Trata-se do primeiro romance publicado de Ayn Rand, filósofa russa que se mudou para os Estados Unidos. É interessante discorrer um pouco sobre a história da autora, pois sua vida tem tudo a ver com suas obras. Nascida na Rússia em 1905, presenciou a revolução russa e toda a mudança causada na população, estilo de vida, economia e cultura. Foi grande crítica do coletivismo. Grande seguidora de Aristóteles, criou um sistema filosófico que preza o individualismo e o racionalismo: o Objetivismo. Seus romances baseiam-se nesse sistema, dessa maneira é possível compreendê-lo a partir da leitura dos romances, já que Rand também escreveu diversos textos acadêmicos.

O Objetivismo preza pelo Eu acima de tudo. Isso vai contra toda a ideia socialista que estava implantada na Rússia (União Soviética), e que estava se espalhando pelo mundo. Ayn Rand dizia que apenas o livre mercado poderia garantir a liberdade do indivíduo e que o Estado deveria existir apenas para garantir o direito à propriedade privada. O coletivismo, para ela, produziria pessoas preguiçosas, uma ruptura da cultura e uma sociedade “escrava” do Estado. Sua filosofia influenciou muito a era de ouro dos EUA, o sonho americano.

Agora fica mais fácil explicar o enredo da obra. A história acontece num futuro distópico dominado pelo coletivismo. O Estado é totalitário, controla tudo e todos, não existe liberdade. Esse controle acontece desde o nascimento até o fim da vida. Isso levou a um retrocesso cultural e tecnológico da sociedade. As pessoas não possuem nome, elas são classificadas, possuem um número. O protagonista se chama Igualdade 7-2521 e foi designado, pelo Estado, a ser varredor de ruas pelo resto de sua vida. Ele é um jovem muito curioso, possui grande vontade de entender as coisas e se diferencia dos demais por ser mais alto. Já que um dos pilares do coletivismo é que todos sejam iguais, isso causa desconforto nos líderes do governo.

O que há de mais diferente nesse livro é que as pessoas não usam pronomes em primeira pessoa. Ninguém se refere a si mesmo como “eu”, mas sim como “nós”. Nesse mundo não existe individualismo, tudo é voltado para o coletivo. É um crime ser individualista. Isso causa estranheza ao ler, mas também é um ponto chave do enredo. Amar outra pessoa individualmente também não é permitido. Nesse mundo, todos devem amar a todos de maneira igual. Igualdade 7-2521 se apaixona por uma mulher e encontra outro conflito com essa regra.

É interessante ver o desenvolver da história e como o protagonista passa a se revoltar com os ideais que regem o mundo. Ele redescobre a energia elétrica e a lâmpada e fica maravilhado. Ao tentar mostrar sua descoberta para os Eruditos (como são conhecidos os cientistas), é escorraçado por eles, pois a luz elétrica quebraria os fabricantes de vela. Parece um bom motivo para se revoltar.

Vale ressaltar que o individualismo e egoísmo, para Ayn Rand, não possuem o mesmo significado do senso comum. Ela quer dizer que o indivíduo deve prezar sua liberdade acima de tudo. Ele não deve se ferir pelo bem do outro, a não ser que essa seja sua vontade. Assim, uma pessoa pode doar para caridade, se é assim que deseja. Nada deve impedi-la. Isso seria defender a liberdade individual.

Trata-se de um livro de leitura rápida, não muito fácil, pela maneira como a prosa é escrita. No Brasil estudamos muito sobre ideias coletivas, desde os primeiros anos de escola à universidade. Não é estudado muito o outro lado da moeda, então leituras desse tipo mostram-se interessantes. Uma pessoa inteligente nunca se restringe a apenas uma área do saber, ela sempre busca beber de variadas fontes. Só dessa maneira é possível ponderar sobre o que é melhor e pior. O tradutor da obra faz uma breve introdução sobre o Objetivismo e sobre a autora no início do livro, o que facilita o entendimento e ajuda na leitura. Recomendo a leitura para quem gosta de distopias, filosofia e para quem estuda na área de Humanas. Não é apenas um romance, é um livro que traz conteúdo, que incita uma reflexão.

Falando fisicamente do livro, a editora fez um bom trabalho. Há alguns erros gramaticais, mas nada grave. O tamanho da fonte é bom, o papel é de qualidade (Pólen Soft). Por ser um livro bem pequeno, o preço está um pouco salgado, por ser um livro bem pequeno. Mas vale o investimento, para ler algo que foge dos discursos que ouvimos na mídia.

Minha nota (de 0 a 5): 4

Alan Martins

cantico
A capa consegue resumir muito bem o livro.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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