MEMÓRIAS DO MEDO

Por Alan Martins

Todos nós temos momentos que marcaram nossa vida de certa forma. Minha longa caminhada nesse mundo foi marcada por incontáveis momentos desse tipo, e hoje carrego as cicatrizes em forma de lembrança.

Há muito venho cozinhando a ideia de escrever algumas histórias que a vida me proporcionou; ao menos aquelas das quais consigo me lembrar, pois assim como a visão, a mente também perde sua nitidez com o tempo. Para um velho, aventurar-se na sala escura que é a mente idosa é como uma pessoa com hipermetropia tentar ler um livro sem óculos.

Hoje em dia tenho muito tempo livre para escrever. Resido em uma casa de repouso, nome pomposo para “asilo de idosos”, lugar onde levam aquele ente que está muito velho e dando trabalho demais. Se você for velho, caro leitor, espero que seus familiares tenham mais compaixão e não o levem à uma dessas casas do esquecimento. Não há muito o que fazer num lugar como esse, não que eu consiga fazer muita coisa na minha atual idade, mas a vida, trancafiada nessa prisão para quem cometeu o delito de envelhecer, torna-se pacata. Tenho até muita companhia, porém grande parte dos residentes não consegue lembrar de meu nome no dia seguinte. Pobres almas, mal conseguem lembrar de seus próprios nomes quando a luz do dia surge no horizonte, despertando-os para mais um dia; um dia que será vivido somente no presente, um dia que nunca será passado. Sinto-me contente por ainda conseguir me lembrar de muita coisa e de quem sou, porém às vezes me sinto mal por estar bem e a maioria não. A vida é ingrata. Os funcionários conversam conosco, muitos são simpáticos e gentis, muitos não estão nem aí para você e só querem saber do salário no fim do mês. Minha família não costuma me visitar com frequência. Não me visita nunca para ser sincero. É muito triste saber que aqueles pelos quais você batalhou como um soldado numa trincheira, hoje sequer lembram de sua existência. Creio que a ingratidão é a pior coisa que podemos receber de alguém. Dói mais que um soco no estômago. Saber que não sou mais um estorvo para eles me deixa feliz, e sei que estão felizes assim.

Desde semana passada, tenho o mesmo pesadelo todas as noites. Sonho com algo que presenciei no passado. Acordo assustado e suando frio. Depois de velho me assusto facilmente, o mundo tornou-se perigoso demais para minha fragilidade. É sobre esse pesadelo que pretendo escrever. Esse foi um acontecimento que me marcou, pois foi o momento no qual mais senti medo em toda minha vida. Talvez transcrevê-lo possa agir como um tipo de terapia e fazer com que esses pesadelos cessem. Já falei muito sobre mim, e a história sobre um velho resmungão não soa muito interessante. Minha intenção não é aborrecê-lo. Prometo que a história ficará interessante daqui em diante.

***

Nunca acreditei em monstros e até hoje recuso-me a acreditar. Porém meu inconsciente perverso sempre me faz cair em contradição quanto a isso. Algo que aconteceu com meu cunhado mudou minha opinião a respeito desse assunto.

Em minha mocidade, eu trabalhava num escritório na cidade de Guary, uma bonita e misteriosa cidade da Alta Paulista. Determinada manhã, acordei com os latidos dos cães e com o canto do galo, algo muito comum no interior. Naquele tempo ainda vivia com meus pais e o dia começou muito bem, pois minha mãe preparara meu café da manhã favorito. Diferente dos dias anteriores, que foram péssimos por causa de uma forte gripe, despertei me sentindo ótimo. A partir desse dia comecei a desconfiar de que muitos acontecimentos bons, em sequência, são um tipo de premonição para algo terrível.

Após um beijo de despedida de minha mãe, comecei a caminhada para outro dia de trabalho. Encontrei uma nota de 1.000 cruzeiros durante o trajeto — mais um acontecimento bom para a conta. Até a parte da tarde tudo parecia normal, mais um dia mexendo com papéis e toda aquela burocracia da contabilidade. O que desfez a normalidade foi a exacerbada maneira de como minha namorada entrou gritando, desesperada, no escritório, numa urgência mortal. Em seus olhos, a ânsia de falar era clara, e o que ela tinha a dizer era realmente mortal. Solicitei permissão a meu chefe para me ausentar por um instante e acompanhei minha amada até a praça da igreja.

 Marina parecia muito assustada, o que também me assustou. Pedi para ela respirar fundo, tentar se acalmar. Mas não havia calma, ela foi logo dizendo:

— César, você tem que ajudar meu irmão!

Nossa, ela me chamou pelo nome e não por algo bonitinho como “amor” ou “meu bem”, e isso me fez perceber que a coisa era séria. Ela explicou que seu irmão andava meio estranho ultimamente, não comia, estava com uma aparência horrível, às vezes saia de casa durante noite e só voltava ao amanhecer, sujo e machucado. Eu também estranhei isso, Marcelo sempre havia sido o oposto daquilo, ele realmente estava estranho. Marina queria que eu fosse atrás dele numa de suas aventuras noturnas. Claro que concordei em ajudar, jamais recusaria algo àquela mulher. Marina, meu primeiro e único amor, a razão de eu conhecer o real significado da felicidade, a mulher que me fez homem. Futuramente nos casamos e vivemos felizes até o dia de sua morte, dia que considero o mais triste de toda minha vida. Eu faria e sempre fiz qualquer coisa que ela pedisse. Ainda mais algo tão sério, sua família estava muito preocupada.

Passei a jantar na casa de Marina todas as noites. Apenas um pretexto para ver quando Marcelo saísse, em busca de sabe-se lá o quê, pela noite. Certa noite, numa sexta-feira para ser exato, Marcelo disse que precisava “tomar um ar” e saiu de casa. De imediato fui atrás. Seguindo-o pelas sombras, me senti como um daqueles espiões dos filmes. Sherlock Holmes em mais uma aventura. Tomei muito cuidado para que ele não me ouvisse e estragasse tudo, entretanto eu poderia estar liderando uma fanfarra atrás do pobre rapaz e mesmo assim ele não notaria nada. Sua situação era péssima.

Aparentemente ele estava com pressa e precisei apertar o passo. Alguns metros adiante, o avistei adentrando uma grande construção, que futuramente seria um galpão. Se essa história se passasse nos dias atuais, todos pensariam que Marcelo estava procurando um lugar escondido para usar drogas, mas isso não era uma prática comum naquela época. Ele foi até lá fazer algo muito pior.

Por não saber o que meu cunhado andava aprontando, pedi, de antemão, a ajuda de meu melhor amigo, o bom e velho Luiz. Fui até sua casa chamá-lo, que, por sorte, não ficava muito longe desse canteiro de obras. Quando cheguei, o encontrei ao portão, parecia que ele estava me aguardando. O sujeito tinha o semblante alegre e recebeu-me de maneira entusiasmada:

— Rapaz, eu já não aguentava mais esperar de tanta ansiedade. — Sempre puxando muito a letra “R” no final das frases com seu forte sotaque caipira.

Fiquei feliz por sua vontade de ajudar, sempre fui grato por ter um amigo como ele. Voltamos à construção e vimos dois homens muito fortes caminhando em direção à entrada. Provavelmente eram trabalhadores da obra. Marcelo devia estar causando problemas por ali há algum tempo, e certamente aqueles caras armaram uma arapuca para pegar o causador dos problemas. Os brutamontes se aproximavam pela frente do prédio, Luiz e eu nos aproximamos, com cuidado, por uma das laterais. Se estavam pensando em bater em quem estivesse lá dentro, eu não pensaria duas vezes para ajudar o irmão de Marina. Nem meu melhor amigo, sempre com seu espírito aventureiro.

Brigar foi um pensamento que logo se esvaiu de minha mente, pois um uivo muito alto, seguido por gritos de dor e estalos de ossos se partindo, ecoou das entranhas da obra. Meu corpo travou, meu coração disparou e senti um arrepio nos minúsculos pelos em minha nuca. Se os dois grandalhões planejavam adentrar o futuro galpão, os sons que vieram de dentro fizeram com que mudassem de ideia, pois largaram o que carregavam e correram para longe, muito longe. Luiz estava tremendo e suando muito, assim como eu, mas precisávamos ajudar Marcelo, ele poderia estar em perigo.

Nunca me esquecerei da visão que tive ao adentrar o local. Meu jovem cunhado estava se contorcendo, gritando como um louco em um ataque de fúria. O pior foi ver seu rosto. Estava desfigurado, a boca estranhamente maior, assim como seus dentes, que mais pareciam presas. Ele não usava barba, porém pude ver pelos brotando em seu rosto. Ao visualizar essa bizarrice, Luiz gritou, o medo enaltecendo seu sotaque:

Óia só! O cumpadi Marcelo tá teno um troço!

Marcelo também nos avistou. Tive pena dele, pude notar que estava lutando contra aquilo. Lágrimas escorriam de seus grandes olhos que brilhavam como os de um gato.

— Corram! Saiam daqui. Vocês não querem ver como fico quando a transformação estiver completa — Berrou, as veias saltando em seu pescoço.

Eu não queria ver essa tal “transformação” se completar. Minhas pernas tomaram o controle e corri, assim como Luiz, o mais distante possível daquele terrível lugar.

Policiais foram até a construção algumas horas mais tarde, certamente a pedido daqueles dois homens. Encontraram Marcelo inconsciente, com vários ferimentos, além de um lugar muito bagunçado. A família de Marina decidiu internar o rapaz num hospital psiquiátrico, após exames constatarem que seu cérebro sofrera algumas lesões irreversíveis. Nunca contei a ninguém o que vi naquela noite e pedi a Luiz para que fizesse o mesmo. Aliás, era noite de lua cheia, detalhe que só mais tarde notei.

Meses depois houve um incidente nesse hospital psiquiátrico e Marcelo desapareceu. A polícia investigou. Vários pacientes disseram que escutaram ruídos e que viram algo na noite do fato. Mas quem vai acreditar em “loucos”? O caso foi esquecido com o tempo, mas eu sabia a resposta para esse enigma. Nunca mais dormi com portas e janelas abertas em noites de lua cheia, e comprei um revólver que deixava carregado com balas de prata. Não havia como trazer a arma comigo até essa casa de repouso, mas sempre me previno como posso.

O medo é como um grande trauma, inesquecível. Não tivemos mais notícias de Marcelo, mas, por essas bandas, muitos juram ter visto um certo monstro peludo em noites de lua cheia. Eu também o vejo, em meus piores pesadelos.


Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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Autor: Alan Martins

Graduando em Psicologia. Amante da Literatura, resenhista e poeta (quando bate a inspiração). Autor e criador do Blog Anatomia da Palavra. Não sou crítico literário, porém meu pensamento é extremamente crítico.

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